Lívia Trivizol: ela foi ao Ápice, mas não irá à Surdolimpíada

A atleta Lívia Trivizol foi “Rumo ao Ápice”, mas por falta de patrocínio não poderá participar das Surdolimpíadas, em Julho, na Turquia.

Ano passado a cidade do Rio de Janeiro sediou os jogos Olímpicos e Paralimpícos. Você se deu conta de que os atletas surdos não participaram das Paralimpíadas?

A comunidade surda mundial realiza seus próprios Jogos Surdolímpicos (Deaflympics), porém infelizmente a falta de visibilidade e de reconhecimento dificulta a obtenção de financiamento das empresas públicas e privadas aqui no Brasil e em vários outros países. Com essas dificuldades, os surdoatletas, quando não estão motivados e patrocinados, acabam desistindo de seus sonhos.

A sociedade precisa entender e reconhecer as especificidades dos surdos no que se refere à comunicação, à questão da identidade linguística e cultural. Para os atletas surdos estar fora da Paralimpíada não prejudica a inclusão social, o que prejudica é a falta divulgação, incentivos financeiros e valorização dos Jogos Surdolímpicos.

Surdos não se consideram pessoas com deficiência, em particular na capacidade física. Pelo contrário, eles se consideram parte de uma minoria linguística e cultural. Em esportes de equipe e alguns individuais, a perda auditiva pode trazer algumas dificuldades ao surdoatleta ao competir com ouvintes. No entanto, isso desaparece nas competições de surdos, nos quais esportes e as suas regras são idênticas às de atletas sem deficiência.

Nos Jogos Surdolímpicos, os surdoatletas são capazes de competir e interagir entre si livremente, sem necessidade de intérpretes de língua de sinais. Se forem competir nos Jogos Paralímpicos, será necessário um grande número de intérpretes de língua de sinais para evitar as barreiras de comunicação.

Saiba mais: Por que os atletas surdos não participam das Paralimpíadas?

Fonte: Confederação Brasileira de Desportos de Surdos

 

Lívia Trivizol tem vaga garantida na Surdolimpíada, em julho deste ano, na Turquia. Sem patrocínio ela desistiu de realizar o grande sonho de representar o Brasil nas Surdolimpíadas.

Lívia tem uma deficiência auditiva congênita, utiliza aparelho e ainda venceu uma leucemia. Sua história de superação se tornou conhecida com a participação dela na série “Rumo ao Ápice”, no programa Esporte Espetacular, da TV Globo.

O sonho de participar das Surdolimpíadas

Lívia pretendia representar o Brasil nas Surdolimpíadas, na modalidade de ciclismo road race e time trial. Ela já havia estudado a altimetria do percurso, e sendo Surdolimpíadas de Verão, estará bem quente na Turquia, e por conta disso já estava treinando depois de meio dia para se habituar com o calor. A meta era trazer uma medalha e obter uma boa classificação para a história do ciclismo feminino. Se fosse à Turquia, ela seria a primeira mulher surdolìmpíca a competir no ciclismo feminino.

Os surdoatletas, mesmo com próteses auditivas ou com implante coclear, no dia da prova, têm que competir sem, para ficar em igualdade.
Para participar da surdolimpíada, Lívia, que usa aparelho e é oralizada, teria que tirar os seus aparelhos auditivos para competir com quem não usa mesmo (perda total) e não é oralizado.

Conheça a história de Lívia Trivizol contada pela própria Lívia
“Meu nome é Lívia Trivizol, tenho 32 anos, resido em Niterói, nascida em Guarulhos-SP, sou fisioterapeuta especialista em Traumato-Ortopedia e Desportiva, pratico triathlon, sendo assessorada pela EKZ Team (treinador Ezequiel Morales) e também ciclismo de montanha em meus dias livres com meu marido, que também é ciclista.”
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Os esportes sempre presentes na vida de Lívia
“Depois de ter vencido a leucemia, em junho de 2005, retomei às atividades diárias para terminar logo a faculdade, a qual tive que trancar para fazer quimioterapia. Embora agradecida pela benção de ter a segunda chance de viver, no fundo eu não me sentia satisfeita. Me sentia incompleta, mas relevei esse sentimento.
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Comecei a trabalhar e quando iniciei os meus estudos de especialização, em agosto de 2012, “acendeu uma luz” para praticar algum esporte, a fim de somar ao meu conhecimento. Procurei uma assessoria e comecei a treinar corrida. Vale ressaltar que eu era a negação de qualquer esporte, sem condicionamento cardiorrespiratório nenhum.
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Os primeiros treinos foram justamente para me condicionar, não foram fáceis e depois passaram a ser treinos de volume e de ritmo. Fiquei o ano de 2013 participando de provas de corrida de rua, com distâncias pequenas e a medida que eu ia evoluindo, me inscrevia em distâncias maiores. No ano seguinte, coloquei como meta só participar de meias maratonas, fiz 3 meias no Rio e encerrei o ano com uma meia em Brasília.
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Durante esses dois anos, participei de treinos coletivos, onde conheci triatletas e ciclistas, que me incentivaram a praticar ciclismo. Fiquei receosa por conta da minha deficiência auditiva, já que ciclismo requer atenção e audição. Eles me tranquilizaram e disseram que tem assistentes e treinadores para isso, além de pedalar com grupo que é mais protegido e coeso.
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No terceiro ano de prática esportiva, um desses meus amigos caiu de bicicleta e fui chamada para tratá-lo. Enquanto isso, ele teve a ideia de me emprestar a bicicleta dele, uma Speed (bicicleta mais leve, feita para velocidade), para eu experimentar. Providenciei todos os acessórios necessários e tive a ajuda de uma professora de ciclismo para os meus primeiros pedais. Foi amor ao primeiro pedal. Desde então, não parei mais.
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Na infância pratiquei natação, ginástica olímpica (4 anos seguidos), saltos ornamentais (2 anos seguidos) e vôlei (2 anos). Atualmente pratico Triathlon, Ciclismo de estrada e de montanha.”
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Rumo ao Ápice
“Participar do programa Rumo ao Ápice (2016), foi mágico. Foi o meu maior sonho realizado até então: por conta da convivência com triatletas, por ter acompanhado alguns deles no primeiro Ironman 70.3 realizado no Rio, ano retrasado, além de ter reabilitado dois deles. Sempre que tinham esses eventos de triathlon no Rio, não perdia a oportunidade de ir e torcer por eles. Acompanhar a garra e a vontade de chegar ao pórtico.”
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Livia Trivizol 1
Rafael Silva, Lívia Trivizol, Fernanda Keller e Kênia Carneiro. Foto: arquivo pessoal Lívia Trivizol.
“Além disso, sempre tive a Fernanda Keller como referência de superação e de dedicação ao esporte. Ter sido convidada para ser treinada pela maior ícone do Ironman é algo indescritível. Foi uma honra e um privilégio ter convivido com ela por 3 meses, ouvir a voz da experiência e completar o 70.3 com ela me esperando no pórtico. Ela acreditou em mim e até hoje continua acreditando, uma vez ou outra a gente se fala, ela sabe que eu posso ir mais além.”
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Lívia Trivizol
Lívia Triviziol e Fernanda Keller. Foto: Rafael Silva.
Legenda da foto acima no Instagram da @liviatrivizol
“Bastidores do segundo treinão com a @fernandakelleroficial em outubro 2016! 🏊 Depois de ficar com medo de entrar no mar no primeiro treinão em setembro 2016 (terceiro episódio), continuei treinando na piscina de forma mais intensa e puxada sob supervisão do professor @leonardonunespereirade (força-tarefa da Keller) e mais uns treinos no mar acompanhada pelo casal amigo @zecablak e @mayumiblak por mais um mês, seguindo as planilhas semanais da Keller. Ao voltar, tinha que mostrar à ela como foi a minha evolução e se o meu medo ainda persistia. Fui aprovada! Fiquei tão feliz, ela vibrou demais com a minha evolução e me disse que no dia da prova eu me daria bem. E olha que neste dia, o mar estava mexido de novo 🌊 (veja como estava o mar atrás da gente na foto, antes de entrar). Nadar no mar no encalço da Keller foi sensacional, meu medo sumiu na hora! Delícia! 😄 📷 @rafaelsilvabra / 📹 @arijr01 (in memoriam) Foto Rafael Silva”
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Conviver com a deficiência auditiva

“Minha surdez é congênita, nasci com Síndrome de Waardenburg, com 90% de perda neurosensitiva em ambos os ouvidos. O que quer dizer que tenho má formação da cóclea, cuja função é transformar a vibração dos líquidos e estruturas adjacentes em mensagem nervosa, e passar pelo nervo auditivo para o cérebro. Esta função é assegurada pelas células sensoriais presentes dentro da cóclea. Então no meu caso, as células sensoriais não se formaram direito ou nem por completo.

Meu processo de oralização foi através de longos 15 anos de tratamento fonoaudiólogo e também trabalhos de inclusão na sociedade dos ouvintes, estudando em escolas normais. Já sofri preconceito e bullying, já fiquei isolada de grupos de colegas da escola, que só me procuravam para resolver questões de dever de casa ou pedir cola, apesar de tudo isso, tive amigos, poucos, mas tive. E os tenho até hoje, em contato constante pelas redes sociais.

Se sei libras?! Não sei, não me adaptei na infância. Uso próteses auditivas, retroauriculares, que me permitem interagir com o esporte e com o mundo através da audição e da leitura labial. O pediatra que fez o diagnóstico de surdez quando eu tinha um ano de idade, disse aos meus pais: “Pai, mãe, sua filha tem sorte. Ela nasceu na era da computação”. Ou seja, a fonoaudiologia através do método “Perdoncini” (creio eu) somada à tecnologia dos aparelhos auditivos na época facilitaram o meu processo de oralização e leitura labial, que iniciei aos dois anos de idade. Tenho a minha “fala mansa” em busca de melhor dicção para que os outros possam me entender.

Como atleta, a surdez não me atrapalha, com os aparelhos auditivos, consigo identificar os sons da rua, os carros se aproximando. Jamais treino ciclismo sem aparelhos auditivos. Já natação, nado sem e quando corro guardo no bolso já que treino na calçada.”

Lívia Trivizol
Foto: arquivo pessoal.

 

Vencer a leucemia
“O processo foi duro e difícil. Com a quimioterapia vivi todos os tipos de dores de uma vez. Além das dores, tinha que conviver com enjoos diários e fraqueza no corpo. Eu estava no auge da minha vida, estudando e quase me formando. Academia, praia e amigos e de repente tive que ficar isolada do mundo por 8 meses para me tratar e ali a minha privacidade foi invadida.
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Era todo dia de manhã, tarde e noite entrando a equipe médica no quarto do hospital, meu braço era perfurado todo dia para coletar hemograma. Foi um choque de realidade. Apesar de tudo isso, eu sabia que iria sair daquela situação, que seria mais uma batalha a vencer e que seria uma questão de tempo (e de paciência) para enfrentar tudo aquilo. Descobri ali que eram meus amigos de verdade, os que ficaram de verdade ao meu lado, me visitando no hospital.”
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Vida, rotina de treinos e alimentação da atleta Lívia
“A minha vida é corrida, conciliando os treinos que o meu treinador propõe com o horário de trabalho. Em alguns dias, 3 horas da manhã já estou acordada para treinar e vou dormir às 20h, 21h. A rotina é puxada, porém me sinto mais produtiva acordando de madrugada, do que em horário normal. No dia em que eu não treino, me sinto mal humorada.
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Como nas horas certas. Pré-treino certinho para o treino proposto e pós-treino bastante reforçado com proteínas. A alimentação varia de acordo com a intensidade do treino. Não faço dieta restritiva.”
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Objetivos 
“Os meus objetivos são sempre em busca do meu melhor no esporte, para a qualidade de vida, lazer e saúde. Sempre que puder, participarei de provas para melhorar o tempo pessoal.”
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Mensagem da Lívia
“Nunca deixe de acreditar em si mesmo. Nós, em qualquer “deficiência”, somos capazes de adaptação, de nos aperfeiçoar e subestimar muitas pessoas. Nós nos tornamos perfeitos diante das pessoas, cada um deve encontrar em qualquer esporte a sua superação pessoal.”
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Roberta Binatti

Roberta Binatti

Mestranda em Sistemas de Gestão, trabalha numa biblioteca. Corredora da equipe das tartarugas. Retornando de uma lesão, tem como meta sair correndo por aí!

3 thoughts on “Lívia Trivizol: ela foi ao Ápice, mas não irá à Surdolimpíada

  1. Conheci o pilates pelas mãos de Livia. Profissional de um conhecimento fantástico. É dedicada e disciplinada em tudo que faz. Hoje somos amigas e acompanho tudo que ela faz. É lamentável que a surdolimpíada na Turquia tenha lhe escapado das mãos. Parabéns pela reportagem. Parabéns Livia, querida amiga!

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